O Touro

  • Qual a origem do Touro Bravo?

    O touro bravo, ou touro de lide, enquadra-se na espécie Bos Taurus. Descende de um animal primitivo, que habitava em liberdade nos bosques de Europa, Ásia e África e que recebeu a denominação de Uro ou Auroque (Bos Primigenius), como era designado pelos povos da Gália. O seu significado etimológico pode traduzir-se como touro selvagem. O Auroque é um dos animais mais retratados na arte do paleolítico, como se pode constatar nas grutas de Lascaux (15.000-13.000 A.C., França) ou Altamira (18.500-13.000 A.C., Espanha) e na arte rupestre do Vale do Côa (18.000-15.000 A.C., Portugal).

    Eram animais de comportamento agressivo e de grande estatura, sendo que a altura média dos machos rondava os 1,80 metros e teriam um peso em redor dos 1000 quilos. Tinham pelagem negra ou flava (alaranjada), com uma lista clara sobre o lombo e uma grande encornadura, com os cornos a poderem medir cerca de 80 centímetros. O Auroque viveu na Ásia (Mesopotâmia), em África (Egipto) e na Europa, chegando ao nosso continente proveniente da Mesopotâmia e Ásia Menor em sucessivas migrações. Há autores que defendem que terá chegado à Península Ibérica vindo do norte de África através do estreito de Gibraltar. O Auroque extinguiu-se no século XVII. O último Auroque foi caçado em 1627, na Polónia, no bosque Jaktorowka.

    O touro bravo actual, descendente deste bovino ancestral, foi salvo da extinção devido à sua participação nas touradas, tendo desaparecido de todos os países onde não existem corridas de touros.

  • Qual a evolução do Touro?

    As ganadarias de toiros bravos surgem com a profissionalização do toureio a pé nos meados do século XVIII. Antes desta época o toiro era um animal silvestre, que vivia nos bosques da península ibérica. O touro bravo que hoje conhecemos é o resultado de mais de três séculos de cuidadosa selecção dos ganadeiros (pessoas que criam os toiros), que ao longo deste tempo foram selecionando caracteres comportamentais e morfológicos (aspecto) deste animal, numa busca constante pela bravura. Deste modo, hoje, podemos dizer que o toiro é cultura, ou seja, é o resultado da mistura entre as características naturais deste animal extraordinário e a acção do homem, na sua selecção.

  • Como se criam os Touros?

    A criação do toiro bravo é reconhecida como uma forma de criação animal de excelência, quer pela promoção do bem-estar animal, quer pelo seu impacto ecológico e preservação da biodiversidade.

    O toiro bravo é criado em regime extensivo (em liberdade) em grandes extensões de montado e lezíria, contribuindo para a preservação do ecossistema do montado e da lezíria, e da biodiversidade das espécies de fauna e flora que neles habitam. Em redor do toiro bravo desenvolvem-se outros animais como o veado, o javali, a lebre, o grou… A UE define como critério de bem-estar animal para a criação de um bovino que este possua um espaço de 9m2. Em Portugal cada toiro tem em média 30.000 m2 de espaço para viver. Um diferença gigantesca. Todos estes dados fazem com que o toiro de lide seja o animal criado pelo homem com maior bem-estar.

    Várias ganadarias encontram-se situadas em terrenos da Rede Natura 2000 (rede ecológica para o espaço comunitário da União Europeia que tem como finalidade assegurar a conservação a longo prazo das espécies e dos habitats mais ameaçados da Europa, contribuindo para parar a perda de biodiversidade) e algumas delas estão ligadas a programas de conservação da natureza e de espécies em risco de extinção, como é o caso do lince ibérico e do abutre negro.

    Nenhum outro animal criado pelo homem é criado em tão grandes extensões de terreno. Na verdade, a criação do touro bravo é um caso absolutamente exemplar de criação animal com elevados índices de bem-estar animal, sendo um guardião da biodiversidade.

  • O Touro sofre nas touradas?

    De acordo com os estudos científicos mais recentes sobre o toiro bravo, sabemos que este tem reações hormonais únicas no reino animal (que lhe permitem anestesiar-se quase imediatamente). Sabemos, por exemplo, que este tem um hipotálamo (parte do cérebro que sintetiza as neurohormonas encarregues, nomeadamente, da regulação das funções de stress ou de defesa), 20% superior ao de todos os outros bovinos, e que, por isso, tem uma capacidade superior de segregação de beta-endorfinas (hormona e anestesiaste natural encarregada de bloquear os receptores da dor) o que faz com que o toiro perante a colocação de uma bandarilha redobre as suas investidas em vez de fugir, que é a reação natural de qualquer animal à dor. O toiro é selecionado tendo em conta a sua combatividade, sendo um animal que tem evoluído, ao longo dos séculos, estando fisiologicamente adaptado para a lide.
  • Como se seleccionam os Touros?

    O surgimento das Ganadarias Bravas promoveu uma das primeiras formas de selecção zootécnica a nível mundial. A selecção da raça Brava desenvolvida pelas ganadarias nos últimos 300 anos é um amplo legado cultural, pois a selecção do touro bravo é inversa à selecção dos outros bovinos mansos. Por isso, a ganadaria brava preservou aspectos comportamentais, morfológicos e funcionais do bovino primitivo que foram eliminados na selecção das demais raças bovinas, nomeadamente o carácter agressivo, o desenvolvimento das hastes e o deslocamento a galope.

    A selecção do carácter agressivo do touro bravo pelo Homem deu origem à Bravura. Este é um conceito de difícil definição e mutável ao longo do tempo. Um touro considerado bravo no século XIX dificilmente assim seria entendido nos dias de hoje. De uma forma simples pode dizer-se que a bravura é a capacidade do touro bravo de combater de forma destemida e valente. Mais concretamente, pode considerar-se que a bravura é um conjunto de características que o touro bravo deve possuir, como a capacidade de acometer, a mobilidade, a nobreza, o recorrido, a transmissão, a ferocidade, a fijeza, entre outras.

  • Que nome se dá a um Touro segundo a sua idade?

    Do nascimento à idade adulta, o touro bravo passa por diversas transformações quer no seu aspecto físico, quer no seu comportamento. A gestação na raça brava dura sensivelmente 9 meses. No momento do parto a vaca brava afasta-se e busca a proteção de uma zona de difícil acesso, protegida pela vegetação. Aí tem a sua cria rapidamente, ingerindo a placenta para evitar que algum predador possa detectar a cria recém-nascida. Até se erguer, a cria permanece deitada no solo, também para evitar ser detectada por predadores. A bravura que as crias de touro bravo carregam nos seus genes é tal que, em vários casos, pequenos bezerros, com poucas horas de vida, investem e atacam oponentes muito maiores, como sejam humanos ou até jeeps.

    De acordo com a sua idade os touros e vacas bravas têm o seguintes nomes: Añojo/Añoja (bezerro/bezerra com 1 ano de idade); Eral/Erala (garraio/garraia com 2 anos de idade); Utrero/Utrera (novilho/ novilha com 3 anos de idade); Cuatreño/Cuatreña (toiro/vaca brava com 4 anos de idade); Cinqueño/Cinqueña (toiro/vaca brava com 5 anos de idade). Considera-se que um touro atinge a idade adulta ao cumprir 4 anos de idade.

  • Quanto tempo vive um animal de raça brava?

    Em relação aos restantes bovinos, o touro bravo tem uma vida muito mais longa com um nível de bem-estar imbatível. Enquanto as raças bovinas de carne vivem no máximo 2 anos, os machos da raça brava, os únicos que são lidados nas praças de touros, vivem em média 4 anos, enquanto as fêmeas, que não são lidadas, vivem toda a sua vida em liberdade no campo. Numa ganadaria que possua 350 cabeças de gado bravo, em média, só 40 animais são lidados, por ano, ou seja, só cerca de 11% dos animais de raça brava irão à praça. Os poucos que são lidados possibilitam que os restantes vivam toda a sua vida no campo.